quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

23:40

25 de Dezembro de 1997,
A chuva molhava o vidro e as luzes intensas que transpassavam a janela lembravam-me de coisas desagradáveis. O barulho era infernal, minha cabeça doía, sentia-me angustiado por tanta insatisfação. Já bastara ter esperado por três horas para poder embarcar, agora, sentado naquela poltrona, vendo a linda menina com seu cabelo castanho avermelhado sacudir inquetamente suas finas pernas com a ansiedade do primeiro voo me lembrava de tudo aquilo que não tinha coragem de aceitar.
Seus olhos eram lindos, verdes, profundos, inocentes. Sua pele era clara com sinais, que mesmo escondidos pelo corpo, arrepiavam os cabelos do meu braço escondido sob a jaqueta jeans. Sua voz era agradável, mas seu sotaque era perturbador. Talvez por ser realmente atraente, talvez por me lembrar daquilo que tanto quero esquecer apesar de insistir em retomar nos meus pensamentos, o falar de uma menina gaúcha me atrai de forma inesplicavel.

Deixar o Rio Grande era indiscutivelmente um alívio. Os últimos dois dias foram um inferno. A festa que me aterroriza pelo simples fato de ser uma comemoração familiar só se torna mais terrível ao ser comemorada em família. A cidade que ainda assombra minhas memorias parece não mudar nunca, ou, para minha angustia, retoma os ares de minha infância sempre que a ela regresso. O Rio difere pouco de São Leopoldo quando penso que única coisa que me importar é estar longe de tudo que não consigo encarar.
Me intrigava o fato de pegar um pedaço daquele retrato antigo e leva-lo para meu refugio, mas Camila era diferente. Enquanto aquelas mesas com parentes dos quais não me recordo e irmãos que não gostaria de recordar rasgavam minha alma como ferro cirúrgico, Camila parecia a mais eficaz das anestesias. Camila não era parente, mas era daquela cidade, apesar de ser Camila, o prazer de te-la era um dor latente.

As minhas estrelas poderiam esperar até a primeira noite na janela de casa. Com a janela do avião a minha esquerda e Camila a minha direita, deixa-la trocar de assento comigo não era mera caridade com a caipira, olhar Camila olhar minhas estrelas era provar do caldo de uma fruta, que em ocuparia minha mesa por muitas refeições. O voo foi como um a primeira dose de uma droga que sopraria minha vela mar adentro. O Rio de Janeiro é minha fantasia.

Camila aos poucos acabaria com o significado que aquela cidade tinha para mim. Estava levando São Leopoldo inteira no seio dela, levando direto para dentro do meu quarto. E sordidamente fantasiava, estava para convidar a sombra do pesadelo para uma noite na mesma cama do anjo dos sonhos.

Camila, meu desejo, minha cura.

Um comentário:

  1. Gavinho, querido, aqui é exatamente como pensei que seria. Especial como vc...

    voltarei, ok?!
    beijos
    Manu

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