terça-feira, 6 de janeiro de 2009

6:42

20 de outubro de 2008,
A luz amarelada refletida nos carros parecia muito mais eficiente que meu despertador. Ora, se até aqui cheguei dormindo, que mal teria continuar assim até que por fim chegasse a minha cama para curtas horas de absolutamente sonho algum até a repetição daquelas imagens?

Como queria que algum doutor entendido pudesse estudar tão estranho fenomeno: Déjà vu. em pleno sonho. Sonho tinha sido uma boa definição para tudo aquilo, os oito primeiros meses de aula, os últimos quatro meses de Sara. O problema com os sonhos é o mesmo com a realidade: duração. A realidade só real por sua duração, bem como os sonhos o são por tanto, apesar de, cada um ter sua duração específica.

Casa, Família, Conforto. Tudo isso mudou tão rapidamente. Esse foi o caminho escolhido, todos os sacrifícios, todos que abandonei, tudo que tive que mudar eram o pavimento de minha estrada.
Aquela menina e nossas esperanças eram meu único consolo. Sara e eu acreditávamos em nos mesmo, em nos como dois, em um futuro bom para ambos, e eu sozinho esperava o fim de tudo como esperaria em qualquer outra vida.
Minha natureza fria assustava meu pobre anjinho com muita frequecia. Que culpa eu tinha?! arrancado do conforto de minha casa, da presença de Natália, Guilherme, Raphael, meus irmãos, meus humildes prazeres de garoto. Era agora um sínico convicto de meus ideais, o pouco de artístico que havia sobrado em mim lembrava-me de cruéis doutores em alguma horrível cidade de Alemanha bem no inicinho da década de 40.
Quando contei a Sara o que tudo aquilo me lembrava, logo após se sentir incluída no meu pequeno holocausto maldito, ela resolveu acabar com o pouco que restava de sadio em minha mente.

Agora queria estar na Tijuca, acordando para ir para a aula em qualquer outro lugar menos absurdamente distante. Queria ter de volta aquelas pessoas, aqueles sentimentos, amigos, hábitos...
Esse jaleco cor de burro-quando-foge pesa feito uma cruz, e se não fosse o ponto de ônibus se aproximando naquela inóspita trincheira asfaltada, poderia ficar aqui lamentando-a o resto do dia. Mas um dia eles virão!!!! Eu juro, eles virão!!! E então, eu e Sara sobreviveremos e ela não mais me verá como um lunático, um alucinado, como ela bem definiu ontem a noite.

C'est la vie!